Cento e quarenta e oito cigarros , vinte e três latas de cerveja, três
garrafas de tequila, e oito bolinhas amassadas de sentimentos. Até agora, seis
baratas já caminharam em meio a sujeira, senão mais, sendo que Smith não vê
como poderia conta-las enquanto dorme.
São quatro da tarde, porem, em consequência de uma cortina
azul-marinho, comprada impulsivamente em uma feira Hippie, bordada com dezenas
de estrelas brancas, o quarto de Smith é banhado por uma espécie de aura calma
e doce. Isso o incomoda. Sua alma já não sabe, ao certo, o que é a paz desde
que entrou neste quarto.
Já sua mão, tateia o lápis pela ultima vez, tentando escrever algo que sua
mente insana crie, e traga à ponta de seus dedos estes versos indizíveis.
Porem, não sabe por quanto tempo conseguirá manter seu cérebro em pleno
funcionamento. Ele ri deste paradoxo: finalmente sua mente consegue criar algo
que seja bom, algo que está para expressar em palavras tudo o que ele
sente. o "nada". Mas ao tempo em que isso acontece, a Linamarina já
esta tomando suas veia. Pensar nisso lhe causa gargalhadas.
Gargalhadas profundas, e asmáticas. Tosse continuamente, mas não sem antes,
entrar em mais uma crise de riso.
Seu corpo dói a cada contração. E
finalmente, quando rir torna-se dolorosamente cruel para consigo,
Smith obriga seu corpo a caminhar em direção ao outro lado no cômodo, onde
habita sua cama, mas não sem antes sentir seus dedos esmagar uma de suas
companheiras.
- Menos uma baratinha para me perturbar
nesse momento...- diz ironicamente.
Senta-se em sua cama, quase sem forças, pega seu lápis em meio aos cigarros, e
seu caderno.
"O dia e a noite,
O começo e o fim.
O medo e a coragem,
O mundo em mim.
O certo e o errado,
O não e o sim.
A prece e o pecado,
o suco e o Gim.
O coração poeta
e o pulmão de um "normal".
Uma alma incompleta,
enquanto mil se perdem no jornal.
O vagar incerto do boêmio em noites longas,
e o andar confiante do empresário e seus segredos.
O rabiscar incoerente de uma criança em seu caderno
e o correr de uma pena que ainda guarda medos.
O chão, a cama.
A calma, e a impaciência.
A agua e a chama.
O medo da decência.
Todos opostos,
todos ligados,
Todos em mim.
Não mais...."
Cabeça dói, corpo também. O lápis cai, e mistura-se novamente aos cigarros. O
mundo gira, o teto lhe aparece de repente.
"Esse tom de azul é tão lindo"
Silêncio, felicidade...
... hora de dormir.
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