quarta-feira, 9 de abril de 2014

Dia 104

Poderia chover,
E deveríamos nos encontrar na chuva.
Como no primeiro dia,
Ou no fim de nossos tempos.

Deveria chover,
E quem sabe eu me encontro na chuva.
Recomeçar os meus dias,
Já se passou muito tempo.

Adoraria que chovesse,
Gostaria de um bom banho de chuva.
Fazer de hoje o grande dia,
Que já não recordo os velhos tempo.

Gostaria que chovesse,
E tu podias ser chuva.
Banhar-me mais uma vez do aroma,
Que mataria a saudade daquele tempo.


Mas hoje  não há de chover,
hoje não há de ter chuva.
Não voltarás nem por decreto,
Não estamos mais naqueles tempos.

Mariposas Brancas.

Primeiramente, surgiram os olho claros, o rosto suave,o sorriso irônico, junto com as mariposas brancas no estômago e o palpitar acelerado e desorientado de um coração, que momentos antes, não existira. Talvez por esse motivo, Demétrio não tenha evitado o olhar interessado e jogador de Clara. Ao tempo em que seus olhos fitavam e analisavam os olhos azuis profundos de tão bela mulher, seu coração palpitava como nunca antes fizera, transformando tudo ao seu redor em uma pseudo-realidade, onde Clara é e sempre será sua parceira.


 [...]

 - Me abrace?
 - Não posso

[...]

Mulher de corpo esguio, voz suave, boca meiga. Mulher.... Mulher independente, dona do mundo, e de sábia razão. De sua boca, infelizmente, não saíra as palavras que consolariam o coração de Demétrio, que ja não sabia o verdadeiro significado de razão a muito tempo.

[...] - Me ame?
- Jamais.
- Me beije, ou ao menos, deixe-me te conduzir nesta noite?
- Diversão...

[...]

 O cheiro de sexo era mais que evidente naquele quarto. O som de dois corpos se misturando em meio ao suor e ao prazer propagava-se facilmente. Porém, o verdadeiro palpitar ecoava apenas de um coração.

[...]

 - Bom dia!
- Okay.
- Voce esta bem, Clara?
- Talvez.
- Quer ajuda?
- Não pedi.
- Por qual motivo voce me despreza, mesmo?!
- Voce quis assim.
- Não pedi por isso!
- Pediu por mim.
- E?
- Pedir por mim é o mesmo que pedir pelo que voce esta tendo.
- Que seria?
- O que lhe é digno, já que não pedi para ser amada...
- E eu? Eu não pedi para amar voce, okay? Mas mesmo assim...
- Cale-se. Isto não faz parte de meus problemas.

[...]

Canecos de leite quente anseiam poder esquentar o corpo, pães frescos preencherão o vazio. E após o café, um banho frio, na tentativa de calar este palpitar, vindo de algum lugar do peito.

 [...]

- Estou partindo, Demetrio.
- Voltará?
- Não vejo razão.
- E vai partir por falta de motivos?
- Não, partirei pois me cansei.
- Espere...
- Diga de uma vez.
- Voce me ama?
- Demetrio, Demetrio. Realmente acredita nestas três palavras dementes e insensatas?
- E você não?
- Deixei de crer. Mas admito que voce foi legal.
- A culpa é minha?
- Não.
- Te perdi?
- Nunca teve.
- Mas voce disse que...
- Foi um erro.
- Me contar?
- Ficar com você
- Não entendo
- Não queira.
- Eu te amo, Clara, eu te...
- Não é problema meu, e ponto. Agora, estou saindo, seja feliz.
- Mas...
- Adeus.

[...]

Em seu estômago, um amontoado de mariposas mortas estava para ser digerido. Os olhos e o belo rosto visto de modo tão angelicais antes, agora eram vistos como a face da perdição. E o lugar onde palpitara um coração, agora era apenas mais um galpão aos dispor de qualquer aproveitador que queira nele morar.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Nosso ar

- Anda tão dificil.
- O que?
- Respirar.
- Como assim? Você está vivo, não? Logo então, respira. Não ouço ruído, então respira bem.
- Você não entendeu.
- O que?
- Anda dificil respirar, meu ar.
- Quer o meu?
- Não entendi.
(beija-o)

sábado, 27 de julho de 2013

Podia ser eterno, mas é terno, e só.


O sol latente em sua face, bochechas rosadas pelo calor do amanhecer. Você insiste em acreditar que consegue dormir mais na tentação de deixar esse dia morrer. O cheiro de café, cupcakes e leite morno, que você imagina que já tenha inundado o casarão. Aromas que dançam em sua mente insana, cheiros que lhe atiçam o palpitar do coração.

Tum, tum.

Levanta-se do conforto de sua cama e arrasta seus calcanhares até a cozinha dos fundos. Não tem certeza do que encontrará, mas sabe que o fará feliz.

Sua família reunida em volta da mesa velha, que foi a velha da sua avó que comprou; talheres batendo a mesa, copos e xícaras passados para lá e para cá com movimentos instantâneos. Todos riam e sorriam quando te veem, mas continuam em sua conversa animada, ou com suas broncas às crianças, que insistem em fazer de aviãozinho a broa fresca disposta sobre a mesa. Percebe que há uma cadeira desocupada, e, ao sentar-se, prontamente recebe cupcakes e um "pingado", entregues com carinho por sua mãe.

Tum.


Sua mãe já não está tão jovem como antes, mas ainda sim era a mulher mais linda do mundo. E seu sorriso, cativante faz com que você se sinta protegido. Para ti, Perséfone teria inveja da progenitora que você continua olhando. E então, desvia sua atenção aos gêmeos que choram escandalosamente, culpando um ao outro por terem derrubado o suco na mesa. Por alguma razão, em seu âmago, você sabe que os dois foram responsáveis pela toalha suja. E ao mesmo tempo, percebe que a família inteira tem a mesma impressão. Enquanto os gêmeos fazem sua cena, seus tios seguram-se para não rir, e sua tia, mãe deles, arranca-os de seus assentos, e os leva para sala pela orelha.

Tum-tum. ----------------------

Por fim, o café da manhã transcorre com mais calma. Você, apesar de todos já terem se levantado, continua na mesa com seu ultimo bolinho, de chocolate com morango. Os homens foram para a sala, com seus cigarros e assuntos do qual você não está nada inteirado. Já as mulheres vão para o quarto, com suas bolsas e celulares, e assuntos que você não esta nada interessado. Porém, sua mãe continua na cozinha, tirando a mesa e juntando louça na pia; quando arranja um tempinho, te olha de soslaio, e quando você se dá conta, uma felicidade estupenda invadiu aquele lugar onde deveria estar seu coração.

- Mãe?
- Diga, filho!- Responde prontamente com usa voz acolhedora, e seus olho se desviando da mesa, em direção aos seus.

- Mãe, eu ja lhe disse que te amo?

Ela ri.

- Na verdade, desde os seus dezesseis anos, acho que nunca mais ouvi essas palavras. E isso já faz quanto tempo? Dois anos?

- Sim mãe.

Mais um sorriso.

- Meu menininho está um homem já, grande demais para lembrar-se de dizer que me ama!

- Mãe... Eu te amo, viu?! É que eu ando atarefado, esqueço até de mim, mas te amo. Mesmo que não diga.

Ela para abruptamente de guardar as coisas, vem até você, e o abraça, fazendo você sentir que é um garoto de, no máximo, onze anos. E com um sussurro lhe diz:
- Eu sei querido. Eu sempre saberei, e sempre estarei aqui, para o que precisar.

Ela termina o abraço, enquanto você se percebe com lágrimas nos olhos. Você termina seu cupcake, e sua mãe prontamente pergunta se ela pode pegar o copo, levando sua mão em direção à ele.

- Não mãe! Não é necessário, deixe que eu lav...

Você tenta terminar a frase, mas quando suas mãos, a sua e a de sua mãe, tocam o copo, ele cai da mesa. E, por algum motivo, você consegue ver detalhadamente o momento em que ele toca o chão, e explode em centenas de cacos, espalhando-se pelo chão da cozinha.

Seu peito dói de maneira constante, e tudo começa a ser repassado em sua cabeça. O sol, os aromas, a algazarra familiar, os primos briguentos. Porem, mais algumas cenas são adicionadas à essa coletânea: Um carro, uma estrada, sua mãe rindo e sorrindo, um sentimento vazio, de solidão e tormento. A contramão. Um caminhão.


Você acorda com o sol batendo em sua cara, roupas rasgadas e silêncio. O único aroma que consegue sentir é o cheiro do mofo, que já toma o ar da casa a alguns meses, e você não está nem um pouco disposto a limpar aquela casa vazia e triste.

"...e sempre estarei aqui, para o que precisar."

Mentira.